quinta-feira, 26 de junho de 2014

Liberdade de mudança de opinião





 Eu calço é 37
Meu pai me dá 36
Dói, mas no dia seguinte
Aperto meu pé outra vez
Eu aperto meu pé outra vez
(Raul Seixas- Sapato 36).

As vezes fico imaginando quantos sapatos apertados usamos no decorrer de nossa vida, quantas vezes temos que apertar o pé em algum sapato que não queremos, não gostamos e não estamos afim de usar...porem acabamos sempre usando, mesmo que por pouco tempo.

Sempre tem alguém que quer impor suas próprias vontades em detrimento da nossa, e por que será que aceitamos? Por que será que não reagimos da forma que queríamos reagir, por que será que engolimos tantos sapos. Por que será que na vida a maioria das coisas são impostas independente da nossa vontade?

Por que cargas dágua você acha  que tem o direito de afogar tudo aquilo que sinto em meu peito” ( Raul Seixas) , por que sentimos a sensação que somos donos de alguém e que sempre alguém deveria ser dono da gente? 

A liberdade está em sermos sempre o que queremos ser, de tomarmos nossas próprias decisões, de seguirmos pelos caminhos que escolhermos, de escutar quem merece ser escutado por nós, de falar com quem fala nossa mesma língua...

Pai eu já tô crescidinho
Pague prá ver, que eu aposto
Vou escolher meu sapato
E andar do jeito que eu gosto
E andar do jeito que eu gosto.”

Me lembro quando eu era criança, lá pelos meus onze ou doze anos, isso mesmo, naquela época nessa idade ainda éramos crianças, inocentes, puras e bestas, eu já queria colocar meus próprios sapatos, tomar algumas de minhas próprias decisões, sentir o que queria sentir, mas ...tinha que seguir as regras, tinha que seguir os conselhos de quem nem sabia viver direito ainda, pois quem sabe viver, vive melhor, sofre menos, e o que eu assistia era muito sofrimento, físico e psicológico, ou seja, como alguém pode dizer como outro deve fazer se nem mesmo ele sabe como agir?

“Você só vai ter o respeito que quer, Na realidade
No dia em que você souber respeitar, A minha vontade.”

Respeitar a minha vontade era a frase mais  escutada pelos pais e responsáveis, éramos revoltados com tudo e com todos, não entendíamos o que nossos pais queriam de nós, não sabíamos exatamente o que seria de nós se fizermos diferente do que eles queriam que fizéssemos, curtíamos a vida da maneira que achávamos que era legal, que era divertido.

“Pai já tô indo-me embora
Quero partir sem brigar
Pois eu já escolhi meu sapato
Que não vai mais me apertar
Que não vai mais me apertar
Que não vai mais me apertar.”



Um dia resolvemos calçar nosso sapato sem apertar, andar solto pela vida, viver as aventuras que a vida nos prepara, amar as pessoas simplesmente por amar, sem cobrança, sem condição, e até sem reciprocidade. Resolvemos que andar com sapatos folgados ou até descalços, era a solução para nossa felicidade, para  resolver nossos traumas, para aprendermos o que realmente é bom e nos faz felizes...

Mas aí parece que sentimos falta daquilo que antes era nossa maior revolta, sentimos falta de alguém que nos ensine, que nos direcione, que diga onde está o certo e onde está o errado, até aprendermos o grande dom do discernimento sofremos barbaridades da vida que em sã consciência não queríamos nunca ter passado. Vem a tona toda aquela sabedoria que os mais vividos sempre demonstraram e que nunca valorizamos, que nunca demos o devido crédito, vem em nosso pensamento aqueles conselhos que julgamos desnecessários e que agora fazem sentido.

A vida as vezes parece ser injusta, ensina coisas que parece que deveriam ser ensinada antes, que deveriam ter sido nos apresentada de forma diferente e com mais clareza, mas será que isso não foi o que aconteceu? Será que nossos pais também de alguma forma não passaram pelas mesmas dificuldades que passamos quando não os ouvíamos , será que seus país também não quiseram passar para eles todo o ensinamento necessário para que a vida fosse mais bela?
Hoje, depois que a vida deu as suas lições, parece que entendo mais as situações que, devido as circunstâncias, foram do jeito que foram. Hoje sei discernir melhor o que devo e o que não devo fazer , hoje sei quando devo lutar ou simplesmente me calar, pois tem coisas que não vale a pena nosso esforço, hoje quando aconselho alguém que amo e não sou ouvido nem levo em consideração, pois sei que é assim mesmo e cada um tem seu dia certo para crescer e dar seu grito de liberdade, vai sofrer, mas faz parte da evolução de cada um. Hoje quando vejo alguém tomando uma decisão que a meu ver já sei onde vai dar, nem me preocupo muito, pois sei que mais cedo ou mais tarde o aprendizado pelo sofrimento será inevitável e tudo se tornará melhor.

Só sei que um conselho nunca é demais ouvir, aprenda com seus pais, por que a vida nem sempre dá uma segunda chance de aprender.

Até a próxima,

Carlos de Carvalho







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